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quinta-feira, 20 de março de 2008

Entrevista ao Jornal Vida Económica

João Mendes e Jorge Teixeira (Executive MBA da Escola de Negócios Caixanova) afirmam: “Devemos deixar cair a tentação de criarmos marcas próprias a todo o custo”.

O mercado interno é demasiado restrito para os que querem ganhar dimensão – referem João Mendes e Jorge Teixeira. Os dois gestores concluíram o International MBA da Escola de Negócios Caixanova que incide sobre a estratégia das empresas. Para João Mendes, a pequena dimensão do país e da maioria das empresas deve ser encarada como uma vantagem competitiva.Jorge Teixeira afirma que a existência de grandes comunidades portuguesas não tem favorecido a internacionalização das empresas portuguesas. No mercado vão surgindo boas oportunidades. A estabilidade e o crescimento económico de Angola tornam bastante apetecível o investimento de empresas portuguesas.Vida Económica - Tradicio­nalmente, existe uma abertura das empresas ao desenvolvi­mento de actividades no ex­terior? Qual é a vossa opinião sobre as oportunidades e desa­fios que a internacionalização coloca às empresas portugue­sas?João Mendes - Somos um país de descobridores, viajantes e fi­nalmente emigrantes. Desde o império marítimo português (a partir de 1415) que conseguimos mudar o mundo vencendo os próprios medos. Estabelecemos rotas e entrepostos comerciais, traficámos escravos, explorámos povos inteiros, ou seja, fomos ca­pazes do melhor e do pior. Mas, deixando de lado as considera­ções históricas, o que importa reflectir é se tradicionalmente so­mos um povo com aptidões para encarar com alguma facilidade e naturalidade a saída do pequeno rectângulo.A crescente concorrência a nível internacional em todos os merca­dos obriga as empresas a seguirem estratégias de crescimento fora do mercado interno. O próprio teci­do empresarial português já con­seguiu perceber que o mercado interno é demasiado restrito para os que querem ganhar dimensão, a dimensão necessária que lhes permita não ver os seus merca­dos engolidos pelos concorrentes. Mas será esse de facto um ponto fraco?Eventualmente, não será se as empresas se especializarem na­quilo que sabem fazer e ao mes­mo tempo apresentarem soluções de flexibilidade aos seus clientes. Nisso somos capazes de fazer bem, somos pequenos e essa pe­quena dimensão permite-nos ou deveria permitir-nos apresentar uma vantagem competitiva face aos demais países. Pequenas pro­duções e de qualidade é connos­co, essa deveria ser a nossa insíg­nia. E nunca é de mais sublinhar que a nossa indústria de pequena dimensão que continua a tentar competir pelo preço e sem carác­ter inovador ou tecnológico está, fatalmente, condenada a desapa­recer. No sector têxtil, as empresas portuguesas foram procuradas pelos grandes agentes têxteis in­ternacionais. A resposta foi de uma forma geral positiva. As nossas empresas ficaram conheci­das por serem capazes de garan­tir uma relação preço/qualidade de alto nível. Esse facto, porém, teve algum impacto negativo na indústria. Isto porque, embora as grandes marcas recorressem à produção portuguesa para os seus produtos espalhados pelo mun­do, não facilitou o aparecimento de marcas nacionais fortes.Em suma, encaramos com al­guma facilidade a nossa presença no exterior, mas urge rever a for­ma como essa presença tem sido feita. A nosso ver, devemos deixar cair a tentação de criarmos mar­cas próprias a todo o custo. Não temos notoriedade suficiente para nos afirmarmos mundialmente mas temos a qualidade que as grandes marcas querem e a flexi­bilidade para as pequenas produ­ções. A qualidade, a flexibilidade, a existência de um tecido indus­trial de pequena dimensão alia­das às nossas características como povo — permitindo compreender e adaptar rapidamente o que o cliente pretende — constituem a verdadeira receita para o sucesso do desafio da internacionalização.VE - A internacionalização pressupõe que as empresas cooperem mais entre si para reduzir os riscos e aumentar a eficácia no mercado externo?João Mendes - Em qualquer processo de internacionalização é vital estarem asseguradas duas premissas que, não estando salva­guardadas, conduzirão ao insuces­so do processo, pondo em causa o próprio futuro da organização: uma forte consolidação da empre­sa e dos seus produtos ou serviços no mercado interno e uma afecta­ção eficaz de recursos económicos e humanos a esse fim. No fundo, trata-se de preparar a empresa (pessoas, meios financeiros, plano de marketing, produtos, proces­sos) para o novo desafio. É aqui que, muitas vezes, quase sempre, a decisão de internacionaliza­ção da empresa bloqueia. A não existência de recursos suficientes leva a que, muitas vezes, se caia na tentação de estender a mão em busca de um subsídio. O que é um erro, porque, para garan­tir a elegibilidade desses apoios, muitas vezes não são seguidas as melhores opções. Mas, em bom rigor, actualmente existem, de facto, alguns empresários que querem dar um rumo diferente às suas organizações, indo à pro­cura de novos mercados e não aguardando pelos subsídios para estabelecerem as suas priorida­des estratégicas de crescimento. O tecido empresarial português, sendo constituído, na sua maioria por pequenas e médias empresas com recursos limitados, deverá rever o conceito de pesquisa de mercados e a forma como se apre­senta neles. Porque não procurar empresas de média dimensão que não têm capacidade para as grandes encomendas no mercado asiático, e porque não fornecê-las com a sua própria marca? Desta forma garantem vendas e maximi­zam a sua capacidade produtiva. Trata-se cruamente, tão-somente, de conseguirmos sobreviver num mercado cada vez mais global. O pequeno empresário deverá obri­gatoriamente aproveitar as missões empresariais, as feiras e exposições internacionais, estabelecendo uma meta de exploração de novos mercados, a visita a feiras levando amostras, seleccionando clientes a visitar e apresentando-se com o objectivo de estabelecer parcerias comerciais.Falar em cooperação para redu­zir os riscos e aumentar a eficá­cia no mercado externo é, como se costuma dizer, “pôr o dedo na ferida”. É fundamental que os empresários ponham de lado algumas desconfianças e optem por esta solução. Existe, muitas vezes, ainda, o receio de que o parceiro retire maior vantagem da aliança, o que tem inviabili­zado à partida qualquer hipótese de entendimento. Por exemplo, a constituição de uma aliança es­tratégica ­através de um consórcio de exportação poderia ser uma boa solução com vantagens assi­naláveis: gastos repartidos pelos sócios, maior gama de produtos e maior poder de negociação.Um bom exemplo de colabo­ração foi a parceria que recente­mente se estabeleceu entre pro­dutores de vinho e a agência de promoção turística Adeturn, que permitiu a realização duma sessão do Grand Jury na região do Dou­ro. Durante quatro dias foram testados mais de cem vinhos das principais regiões portuguesas. Este tipo de parcerias são o ideal, confundem-se com as acções de RP, são mais eficazes na criação de notoriedade. Esta parceria vínico-turística fará mais pela promoção do Douro e dos vinhos portugue­ses do que outras grandes iniciati­vas, muitas vezes pagas a “peso de ouro” e com resultados práticos bastante limitados.VE - A aposta das empresas portuguesas deve dirigir-se mais a mercados de proximida­de e, teoricamente, de menor risco, ou mercados emergen­tes, com maior risco, como An­gola ou Brasil?Jorge Teixeira - A União Euro­peia representou, em 2006, 77,2% das exportações e 75,5% das im­portações portuguesas. Sendo que os principais clientes de Por­tugal foram no mesmo período: a Espanha (27,4%), a Alemanha (13,1%), a França (12,4%) e o Reino Unido (7,1%). Os Países Africanos de Língua Oficial Por­tuguesa (PALOP) representaram 4,4% e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), incluindo o Brasil, 5,1%. Estes números demonstram claramen­te que a existência de grandes co­munidades portuguesas não tem favorecido a internacionalização das empresas portuguesas.A estabilidade e o crescimento económico de Angola tornam bastante apetecível o investimen­to de empresas portuguesas. As exportações para o Brasil tem aumentado ligeiramente mas o saldo é amplamente desfavorável para Portugal. Tendencialmente, o desejável é que o crescimento das exportações portuguesas se sustente fortemente em produtos com elevado valor acrescentado e com forte componente de inova­ção e tecnológica.Além disso, é necessário prestar atenção à modificação de padrões de consumo, por exemplo, Portu­gal exportou para a China vinhos no valor de 547 mil euros, entre Janeiro e Junho de 2007.VE - Existem serviços dirigi­dos às empresas que querem expandir a actividade fora do país?Jorge Teixeira - Actualmente, existem diversas entidades e orga­nismos que prestam serviços diri­gidos às empresas que pretendem iniciar ou expandir o processo de internacionalização. Quer sejam a AICEP, o IAPMEI, Associa­ções Empresariais ou Câmaras de Cooperação Bilaterais. Entre os serviços disponibilizados encon­tram-se: acções de formação, mis­sões empresariais, feiras e outros eventos no estrangeiro. O próprio modelo de diplomacia económica em que se utiliza a influência di­plomática portuguesa e os recur­sos existentes do Ministério dos Negócios Estrangeiros e do Mi­nistério da Economia para apoiar as empresas portuguesas. Existem, sem dúvida alguma, recursos sufi­cientes afectos a este desígnio na­cional que é o aumento da capaci­dade exportadora e que poderiam catapultar a imagem das empresas portuguesas e do país, mas então porque falha a promoção da mar­ca Portugal? Falha claramente na resposta às seguintes perguntas: qual o segmento de clientes que queremos atingir? Estamos à pro­cura da notoriedade do país, à se­melhança das estratégias empresa­riais? Entendemos Portugal como uma empresa capaz de oferecer diferentes produtos e serviços aos seus clientes? Lamentavelmente, não. E esse é o nosso drama.

3 comentários:

Unknown disse...

Li o seu artigo com muito interesse, sobretudo pela sua afirmação:
“Devemos deixar cair a tentação de criarmos marcas próprias a todo o custo”.
Com a qual concordo totalmente.
No entanto, na continuação surgem determinadas afirmações que me remetem para a dura realidade do mercado e em que as suas observações, analisadas, penso eu, com pontos de vista mais pragmáticos, se podem revelar não tão objectivas:
“Tradicionalmente somos um povo com aptidões para encarar com alguma facilidade e naturalidade a saída do pequeno rectângulo”
Normalmente vivíamos dos agentes estrangeiros e ou clientes que nos visitavam e indicavam o que mais lhes interessava comercializar.
“Pequenas produções e de qualidade é connosco, essa deveria ser a nossa insígnia”
Sabemos qual é o nosso lote mínimo rentável para produzir?
“As nossas empresas ficaram conhecidas por serem capazes de garantir uma relação preço/qualidade de alto nível”
Sobretudo durante o período em que controlávamos a possibilidade de desvalorizar.
“Temos a qualidade que as grandes marcas querem e a flexibilidade para as pequenas produções”
Sobre este tema três considerações:
1º Há muitos anos, cerca de 20/25, quem apresentava um pólo ou uma camisa ou em alguns casos casacos em riscas ou xadrez com as riscas acertadas entre as costas e a frente, o bolso acertado com a frente, etc. Podia pedir um preço superior, um “plus”. Antigamente a qualidade era uma vantagem competitiva e, portanto, havia a possibilidade de se conseguir um preço extra. Hoje em dia a qualidade é uma necessidade competitiva pelo que não dá direito a um preço extra. Ou se tem e talvez possamos continuar ou não se tem e somos forçados a abandonar.
2º Se assim fosse as importações realizadas pela Europa diminuiriam e isso não sucede. Logo existem, já empresas longínquas que se adaptaram a novas exigências.
3º Para se conseguir ter êxito, não interessa saber só produzir bem, não interessa saber só comercializar, isto é, saber levar ao cliente o que produzimos bem mas, sim saber o que o cliente quer. Pode-se comprar uma fábrica “Chave na Mão” com todas as indicações de como produzir da melhor forma. Ou seja, hoje em dia, qualquer entidade tem acesso ou Know-How, poucos conseguem atingir o Know Why, ou seja, porque produzo uma camisa ou fato ou pólo em verde-claro e não em verde-escuro ou castanho, porque produzo numa forma estreita e não larga, curta ou comprida, etc. Porque utilizo esta matéria-prima e não outra.
“Rever o conceito de pesquisa de mercados e a forma como se apresenta neles”
O que se me oferece comentar sobre este tema é muito simples, as informações surgem na empresa através dos agentes ou de vendedores próprios que sem saberem da estratégia da empresa ou em alguns casos sem saberem que a empresa nem estratégia tem, trazem dados avulsos que confundem ainda mais a empresa.
Para terminar estes comentários que, espero, não me leve a mal pela sua forma directa e pouco “politicamente correcta” um pedido lhe faço:
Use a sua notoriedade e consiga que organismos do estado, possivelmente, o IAPMEI, mandem realizar estudos de mercado, que podem ser realizados nos diferentes segmentos de mercado e aos líderes desses segmentos, em produtos específicos. Bastando para isso, que sejam realizados em Espanha, posto que quem for competitivo em Espanha será, com certeza, no resto dos países europeus.

Jorge Teixeira disse...

Caro Miguel
Agradeço o seu comentário sincero e a frontalidade das observações sobre a realidade que aponta e que não poderiam estar mais correctas pela visão que demonstra ter sobre o sector têxtil.Quando nos referimos ao "desespero" de criação a todo o custo de marcas próprias, pensamos ter mais a ver com a forma como o sistema de incentivos ao investimento está desenhado, a marca é que interessa, e tambem concordamos, mas nem todos têm a capacidade para criar uma marca. Como refere e bem que há 20/25 anos ter as riscas casadas ou o xadrês era suficiente para acrescentar algo ao preço, tem toda a razão, hoje já não existe ninguem que não tenha acesso a fazer com qualidade, isso já é básico para estar no negócio, efectivamente o Know why é que me parece dificil, e aqui entre nós, quem decide o apoio aos projectos apresentados, na sua maior parte ,quase que poderíamos arriscar a dizer que nunca trabalhou numa empresa de sector nenhum, logo desconhece o que é estar “ a molhar-se” todos os dias como dizem os nossos vizinhos. Quanto ao seu pedido gostava de ter suficiente influência como gentilmente disse que teríamos para poder “influenciar” alguem, no entanto o que pretendemos com esta entrevista é mexer com o estado das coisas e que se construa algo e que se invista e não se gastem euros em campanhas de promoção de retorno duvidoso e se invista no conhecimento dos mercados próximos e como diz, Espanha está aqui ao lado e nem conhecemos bem as suas regiões nem a forma como se efectuam negociações com um vasco ou com um catalão. Agradeço-lhe o seu comentário e se achar bem envie-me um email, onde terei o maior gosto em trocar opiniões consigo.
Obrigado
Jorge Teixeira e João Mendes

Maria J. T. Lima disse...

Olá Jorge,
Só passei pra saber como você está e deixar um abraço!

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